Admito que tenho urgências muito estranhas.
Como, por exemplo, atravessar aquele poste antes do carro enquanto ando na rua, senão eu cismo que morro. Ou quando como aquela torta de maçã rápido demais porque na verdade já estou de olho naquele último pedaço do brigadeirão que minha avó fez só pra mim (mas parece que a tia lá não entendeu isso). Ou quando respondo as pessoas assim que elas falam no facebook porque tenho medo de deixá-las com uma enorme carência de mim por um minuto. Ou quando leio aquele livro, porque tá-na-metade e tem-que-terminar, mas corro pra pegar naquele outro que eu nem-comecei e parece tão-bom-que-não-dá-vontade-de-terminar.
Ou quando eu escrevo um texto e não reviso porque já quero postar para todo mundo ler e ver o quanto sou genial (obs: ninguém lê, fica cheio de erros e acaba sendo tudo, menos genial).
Mas a minha urgência mais insignificante é a que você mais implica: a urgência de você.
Você diz: "Hoje não dá, te vejo quarta". Entro em desespero. Tudo pode acontecer até quarta. Os astros podem mudar de órbita, meu signo ficar com uma lua em Touro, eu posso entrar numa TPM. Eu posso ficar menstruada. Eu posso perder sete quilos. Você vai me achar magra demais. E feia. Eu posso ganhar sete quilos. Você pode me achar gorda demais. E feia. Eu posso terminar de ler um livro da Sylvia Plath e entrar em depressão. Eu posso ter uma doença desconhecida e rara que só me dará mais 24 horas de vida (o que significa que eu vou morrer segunda, que por sinal, vem antes de quarta-feira). Eu posso morrer de fome ou de hiperglicemia por tanto doce (tá certo, né?). Posso ter um ataque de loucura e cortar o cabelo sozinha (o que ficaria péssimo e você acharia feio). Eu poderia ser presa por sair da feira com uma caixa de tomates sem pagar, só porque tava com pressa. Pode chover e inundar a cidade por dias a fio. Pode cair um raio na minha cabeça terça, aí só nos veremos mesmo na quarta-feira, no meu velório. Podem me internar num hospício assim que eu publicar esse texto. Posso ganhar na mega-sena e decidir dar uma volta ao mundo em sete dias. Porque sim, eu posso escolher até fazer outras coisas que não incluem você, até na quarta-feira.
Eu posso conhecer uma pessoa que queira muito sair comigo na terça. E que proponha ser minha companhia de todos os dias.
Alguém pode finalmente achar que eu escrevo coisas legais e me propôr uma reunião de negócio. E, putz, logo quarta!
Mas você sabe que eu jamais trocaria nada por você. E é por isso mesmo que você não desmarca: "Hoje não dá, te vejo quarta!". Porque você já sabe que eu circulei na minha agenda, calculei as horas (96hs), reservei o horário, desmarquei compromissos, separei os filmes pra gente ver e comprei as pipocas (as do Mundo Verde, porque a gente tá de dieta). Você sabe muito bem que a minha pressa é por você e você não se apressa pro que é garantido.
Você chama de desespero, mas pra mim é amor.
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