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27 setembro 2015

Decídua.

Era incômodo e quente o tecido esponjoso que sustentava. A placenta a envolvia do mundo, mas o umbigo era capaz de transmitir a humilhação. O riso amarelo do mundo. A gargalhada dos vizinhos. O cheiro de mijo e porra das ruas. Ela podia sentir o odor sujo . Dos becos. Das janelas acesas. Da rua sem ninguém.

Não era dia há 72 horas. Ela caminhava nua pela cidade e a única coisa que fazia além disso era a troca de nutrientes pelo umbigo. Os pés frios tocavam o chão. Mijo e porra. O único som que ouvia eram os gemidos, mas não tinha ninguém, exceto mijo e porra. 

As calçadas. As inúmeras camadas de cimento. Os tecidos. Os vasos sanguíneos. As membranas. O tato. Tudo era excessivo e qualquer movimento parecia errado ou nojento demais, porque toda a cidade cheirava a banheiro de bar. No final da esquina, ela já podia ver uma enorme placa colorida "Bem Vindo a Lugar Nenhum". Felizmente, tinha chegado ao seu destino.  Seus pés começaram a arder, mas não era o sol que esquentava o chão. Ele parecia ruir como placas tectônicas sob dos seus pés.

Ao olhar para baixo, conseguiu enxergar, com a pouca luz ambiente que o letreiro proporcionava, o sangue que escorria de sua vagina e chegava aos seus pés. O fluxo aumentava e com ele, um estranho líquido se misturava. Mijo e porra. A consequência dos dois. O conta-gotas vaginal pingava o líquido no chão e tudo que era sólido se desmanchava. Ácido. Gotas. 

Não era noite há 72 horas. Mas eles dormiam na mesma cama. Cada um em seu casulo, ambos se protegendo de alguma coisa que não se sabia direito o que era. Encolhidos como um caramujo. Escondendo suas entranhas, seus vermes, suas carnes, suas membranas, suas doenças.

Mas o cheiro é tão intruso quanto a água e percorre todas as mínimas brechas, as mínimas passagens. O cheiro, não por acaso, era de mijo e porra. O mundo e o submundo. O visível e o invisível. As diversas cidades paralelas, não constituídas pelo mesmo espaço. Tudo isso possui algo em comum, o corpo invisível e maleável do cheiro fétido que origina nosso nascimento.

Ela acabou acordando com gotas em sua testa. 
Pequenas rachaduras no teto vazavam um líquido estranho que caía em sua testa. Um líquido viscoso. 
Gradualmente as rachaduras aumentavam e o conta-gotas se transformava em uma grande chuva, intensa, que inundava todo o quarto. O corpo dele boiava, sem abalar seu sono. Parecia levitar. 
Ela lutava contra toda a água, mas era impossível flutuar.

Dilúvio.
Placentas.
Vaginas.
Mijo.
Porra.
Decídua.

A inexistência de um ciclo e da renovação. 
A inexistência de um estado de pureza, porque a vida, em seu início, já tem cheiro de esgoto.

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