Estou no metrô. Acabei de sair da minha terapia. Me sinto suja, estou acordada desde às 5 da manhã. Minha roupa incomoda, minha pele me incomoda, meus sentimentos incomodam. Minha mochila está pesada e ainda tenho um dia pela frente. Queria estar nua - mesmo sabendo que ir a terapia é uma forma de me despir. Regina canta em meu ouvido "born like sisters to this world..." e me lembro há quanto tempo não escuto essa música. Talvez um ano ou mais. Por que será que esquecemos das coisas que mais gostamos? Parece que a gente se perde junto com o tempo. A gente se perde da gente e a gente e cria um culpado: o tempo. E quando queremos voltar pro passado, queremos ver uma parte de nós mesmos que não está mais entre nós. Há um ano atrás me sentia magra e bonita. Comia frutas. Legumes. Verduras. Não tomava coca. Era viciada em chá verde. Em tangerinas. Corria. Não comia carne de jeito nenhum. E começo a lembrar do quanto me odeio agora e, merda, essa roupa mostra que engordei mais de quinze quilos de uns tempos pra cá.
Um homem vaga a cadeira e isso é tudo que eu preciso. Assim ninguém é obrigado a olhar pra minha bunda com essa legging transparente ( e eu não sabia que era transparente até sair de casa). Ao me segurar pra sentar, esbarro na mão de uma menina que me faz parar de prestar atenção na Regina cantando. Vamos lá, não é tão menina assim, deve ter uns 25. Mas tem exatamente o meu corpo há um ano atrás. Antes de olhar para o cabelo, olho pra blusa - é linda e não posso mais usar uma dessas. Olho o cabelo: é tão brilhoso que minha inveja bateu e voltou me cegando. Não sei que estação estou. A menina tem uma tatuagem linda que não consigo reconhecer o que é - mas ela é tão estilosa que, mesmo não vendo quase nada, tenho certeza que a tatuagem é maravilhosa. Olho para o namorado dela e ele também é perfeito como deveria ser - olhos verdes, loiro, musculoso, blablabla. Por mais estranho que isso pareça, estou mais preocupada em olhar para ela. Ela - que está segurando a barrinha do metrô pra não cair - deixa transparecer suas unhas vermelhas bem feitas. Eu, segurando bem próximo da mão dela, com minhas unhas por fazer. Ela olha pra mão dela, olha pra minha mão e me olha com cara de nojo. Não foi bem uma cara de nojo, mas eu achei. E lembrei da roupa que estou vestindo, dos meus quinze quilos (ou mais) a mais. Da minha mochila pesada. Das coisas desorganizadas dentro da minha mochila. Da minha mente desorganizada. Da minha vida desorganizada. E desejei imensamente voltar no tempo. Voltar pra mim. Deixar de ser quem sou no momento. Ser ela.
A moça com a voz daquela mulher que canta "Rio 40 graus" me avisa que estou chegando na Uruguaiana para encarar a última etapa do meu dia. Eu me despeço da menina, sem dizer nada, claro. Para minha surpresa, ela vira pro namorado-g-magazine-feelings e escuto com o meu ouvido esquerdo, que está sem fone: "Chego chegando, beijo no canto da boca". Ok, estou alucinando e devo ter escutado errado. Mas ela continua: "O nosso lema é ousadia e alegria, a nossa cara é pagode todo dia". Coloco os dois fones. Não me conformo. NÃO ME CONFORMO! Como assim? Me sinto profundamente enganada por essa pessoa com quem nunca falei. Ela me enganou o tempo todo com essas tachas no sapato. É sério que agora todo mundo usa isso? E a tatuagem, era linda também, não era? Tudo bem, eu não vi. Sou forçada a sair do metrô, uma felicidade do universo. Saio com a sensação de que não há como encontrar a gente nas outras pessoas. Ela é ela, eu sou eu. E olha, beleza que você é magra. Mas seu gosto musical é péssimo.
Enquanto isso, Regina canta em meu ouvido: "hey, remember that time when I would only read Shakespeare? Hey, remember that other time when I would only read the backs of cereal boxes?". E começo a rir sozinha.
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