Era uma das muitas fotos que vinha recebendo, fazia dois meses. O rosto da mulher tinha cortes profundos na testa, estava pálida e havia muito sangue. Morta, completamente morta. E depois de deduzir isso, Clara perguntou a si mesma se alguém poderia estar morto pela metade.
Era obvio que não. E ela parecia muito mais apegada às causas da morte da mulher fotografada do que aos motivos que levara a fotografia à sua casa. Como boa escritora de romances policiais que era, queria apenas sugar todas as possibilidades que as fotos ofereciam a sua imaginação – e ela estava fazendo isso muito bem, já estava terminando seu ultimo livro.
Todas as quartas-feiras após receber a correspondência anônima que ajudava em sua criatividade, ela se dirigia ao café perto de sua casa. Era o melhor lugar para escrever, pensava. Ela se senta e Pablo, o garçom, traz o cappuccino sem que o pedido precisasse ser feito. Frequentava o lugar há tempos. Sabia que Pablo se separou há dois anos, mas há três, investe em Mônica, a garçonete – sem sucesso, claro. Sabia também que Antônio, o dono do café, não toma guaraná desde que sua mulher morreu por tomar uma dose muito alta de analgésicos com guaraná. Pegou trauma de guaraná.
Em uma destas idas ao café, Clara percebe um movimento estranho. Um homem que nunca vira, sentou-se ao seu lado em uma das mesas e a observava disfarçadamente. Mas não tão disfarçadamente que ela não pudesse ver com sua visão periférica. Quando o encarava, ele desviava o olhar. E a cena se repetiria por mais duas semanas. Certa vez, ao voltar pra casa, Clara pensou estar sendo seguida. Mas não havia ninguém. Começou, então, a achar que estava ficando louca, vendo coisas. Estava impregnada pela loucura de Lucas, seu personagem psicopata que matava toda quarta-feira.
E foi então que recebera, na semana seguinte, uma nova foto. Óbvio que receberia, como todas as outras, mas essa era diferente. Havia um homem morto, com cortes e muito sangue saindo de sua boca. Verborragia, pensou. E depois achou a piada de mau gosto. Era o homem que a observava no café e que agora estava morto. Pela primeira vez quis saber quem enviava essas coisas. Queria saber de tudo. Estava com pena do homem morto. Sentiu tristeza e vazio por ter perdido um... Um... Observador. E por não saber nada dele, além de que ele a observava. Queria saber porque a observava. E por fim, achou que seria a próxima vítima. Ficou de luto por si mesma. Passou a ir ao café de preto, pra mostrar a seu assassino que, “SIM EU SEI DE TUDO, OK?”. Como escritora, queria ter controle de todos os personagens. Era óbvio que ela já sabia o final, antes do final.
E foi em uma destas idas ao café, ao tomar o primeiro gole de seu capuccino, que tudo aconteceu. Ficou branca, pálida, sentia muito pouco suas mãos. Levantou-se e foi se arrastando até a porta de vidro, em passos muito lentos, mas era o mais rápido que conseguira. E ela gritou: “Eu sabia que ia morrer, sabia! O que eu não sabia... Era que já estava morta. E agora nos encontramos”. Um homem olha para o rosto dela. Era ele, o homem da foto. O homem-observador do café. O homem morto! Estariam todos mortos? Ou mortos pela metade? Meu Deus, se pode morrer pela metade?
Ele riu, a tomou pelos braços, disse que estava tudo bem. Levou-a novamente para dentro do café. Pablo, Mônica e Antônio não entendiam nada. Mas Antônio gritou para que não dessem guaraná pra ela. O homem-observador pede para Clara se sentar. Abre então, cuidadosamente sua mochila e tira vários potinhos bonitos dali. Clara pergunta a ele: “Ok, então temos maquiagem no Além?”. Ele responde: “Que Além? Não estamos mortos!”. Ela continua: “Sim, estamos sim. Você morreu e eu to falando com você. Eu também morri.”. “Não você não morreu... Deixa-me te contar tudo desde o começo”, ele respondeu. E passou um longo tempo, talvez horas, explicando seu trabalho com maquiagens para cinema, como as das fotos. Ele soube por notícias que ela estava com crise de criatividade, que estava entrando em depressão por não conseguir terminar seu livro. Resolveu enviar as fotos. Amava seus livros há tempos... Amava tudo, amava... Ela. Clara pergunta: “Se me ama, por que não me mandou flores? Por que mandou foto de gente morta?”. “Não estão mortas!”, disse rápido. “Não enviei flores porque você não é só mulher de flores. Nem é uma escritora só de romances... São romances policiais! Fora que receber fotos e receber flores pode, às vezes significar a mesma coisa e...”. Então, Clara resolveu beijá-lo. Gostara dele, gostara mesmo. E teve medo que o homem morresse completamente de verborragia.
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