Minha irmã pequena é a única pessoa que conheço que já conseguiu algo chorando. Mas quando já se tem quinze ou dezesseis anos, nossas lágrimas não convencem mais ninguém. Nosso desespero não comove. Nosso sofrimento repele ao invés de aproximar as pessoas.
E essa noite, eu, com vinte anos, chorei alto, achando que alguém viria me perguntar o porquê daquilo. Que alguém viria com uma voz suave dizer “está tudo bem...”. Ninguém veio. E eu chorei mais alto, achando que o método da minha irmã me serviria. Mas tenho vinte anos. Não sou mais uma criança, que não entende o porquê de não poder ganhar um sorvete. Eu, então, me calei. Ninguém iria me consolar mesmo. Engoli o choro e fiquei em silêncio escutando o Renato Russo me dizendo “tudo bem... tudo bem...” em Giz. Não resolveu. Algo gravado há anos atrás – por acaso, quando eu era criança e meu choro convencia - não me consolava, pelo simples motivo de não ser feito somente pra mim. De não sentir, ao me consolar, a minha tristeza e sendo assim, eu não convenceria ninguém. Como se o choro conseguisse convencer alguém a gostar da gente. Como se alguém gostar da gente fosse o bastante para a gente não chorar. Como se o choro fosse culpa do outro.
Foi então que eu descobri que meu choro é fruto de uma ferida que eu mesma abri. Essa ferida, que eu abri de propósito, e com cara de desentendida pedi pra você curar. E disse que estava doendo muito. Meu choro é como uma febre. Eu quero que alguém me agarre e me leve para um banho e que cuide de mim. E que fique do meu lado a noite toda pra ver se ela não vai voltar. A minha ferida dá febre, sim. Dá febre de quarenta graus. Porque eu quero.
Raramente eu choro escondida. Raramente eu sinto pra ficar por isso mesmo. E raramente eu me contento comigo mesma. E quando não dá pra chorar bem alto, a gente dá um jeito de gritar com as palavras. E raramente escrevo pra mim mesma, raramente escrevo pra ficar por isso mesmo, raramente eu me contento só com o que está escrito...
E depois, fui ficando cansada de tanto desespero, foram me faltando lágrimas e coragem de abrir mais e mais feridas. Porque também, cá entre nós, já estava de saco cheio daquele draminha todo. Vesti meus vinte anos. Dormi.
Sem ironia.. você me fez chorar..
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