Ela olhava para o teto e se ajeitava na cadeira. Estava meio desconfortável ali, e ela não sabia muito bem falar sem olhar nos olhos. Mas mesmo assim foi falando para ele. Eu não sei ser doce. Eu não sei escrever doce. Não sei enfeitar com palavrinhas bonitas e dizer: então, amor, venha ler seu jornal nesse meu colo que é quente. Viu que horror? Eu não sei ser doce. Eu não sei chamar ninguém de amor. Viu? Eu sou amarga, azeda. Amarga como meu café pela manhã. Eu gosto de café amargo, sim, daqueles que demoram a ir. Eu gosto de tudo que não vai fácil. Tudo que é doce vai rápido. Já viu em festa de criança? Geralmente só liberam o brigadeiro no final, e vem aquele monte de pessoas pequenas para comer aquela coisa com granulado. Acaba em um minuto, já viu? Brigadeiro nunca sobra. O que é doce acaba rápido. O limão só é usado para temperar o peixe. E pra fazer caipirinha. Deve ter mais utilidades, eu não sei. Não sei, porque não sei cozinhar. Eu gosto de limão. Limão é azedo. Quase ninguém gosta muito de limão. Eu gosto. Gosto de chupar limão até virá-lo, assim, sabe? Mas meu fascínio ainda maior é pelos morangos. Não é azedo, mas também não é doce. Já viu? As pessoas costumam colocar açúcar em cima do morango. Eu sou um morango. As pessoas querem jogar açúcar em cima de mim. Mas eu não preciso não. Talvez eu não seja tão azeda, nem tão doce. Talvez eu seja vermelha. Como o sangue. Como o amor. Como a tarde quando desemboca na noite. Como uma criança quando corre muito tentando alcançar seu coleguinha no pique-pega. Eu sou uma criança, vermelha, talvez nem doce nem azeda, brincando de pique-pega. Com a vida. Com meus sentimentos. Eles são bons na brincadeira. Tão bons que às vezes eu me canso deles e preciso parar de tentar alcançá-los. E acabo parando em uma cadeira dessas, olhando para o teto, em uma tentativa de reformular a estratégia.
Sinta o tique-e-taque do relógio. É caro- Ela continuou. Do que eu estava falando mesmo? Ah, sim... Eu sou meio azeda. Sabe, na verdade eu que tenho dificuldade de ir fácil. Não consigo gostar muito dos meus pais. Eles também não são muito chegados em mim. Tentaram, sabe. Mas sem açúcar é meio difícil de engolir. Meu pai é diabético, mas mesmo assim não resiste a um açúcar. Eu não tenho açúcar. Ele deveria me agradecer. Minha mãe é um bolo de chocolate de tão doce. Falam que eu sou tão grossa e estúpida com ela. Eu sou azeda com minha mãe. Porque não consigo amar minha mãe? Eu não sei. Só sei que não consigo. E me acham ruim por isso. Eu não acho que sou obrigada a amar uma pessoa só porque carrego seu sangue. Às vezes o vermelho do sangue é diferente do vermelho do amor. Você sabe o que é o amor?
Ele fingiu que ia falar algo, fez-se o silêncio. Seu celular fez um barulhinho discreto. Ele então disse que o tempo dela tinha acabado. E que era para aumentar o número de sessões de duas para três vezes na semana.
Legais esses contos curtos. Boa costura de descrição/falas/pensamentos no texto. E punch ao final.
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