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17 outubro 2011

Correio Poesiense

Parecia o Pequeno Príncipe, mas não era. Ainda assim era um principezinho.

Ninguém o via assim. Ninguém o via de forma nenhuma. Simplesmente não o viam. Era um daqueles tortos, tortos solitários.

Principezinho para não se sentir sozinho deu a desenhar. Poderia escolher a cor que quisesse, quis pintar o mundo. Desenhava seu próprio mundo com palavras. Inventava pontos, vírgulas e linhas. Era um herói: havia matado a solidão com a mentira. Em meio a dinossauros, mini cactos e violinos ele também criou a lua, o sol, o anjo, a flor e a estrela.

- Principezinho, agora o universo é teu! – gritou a voz da mentira.

- Ainda falta – respondeu.

- Mas olha bem, já tens um jardim, uma constelação, já criasse tudo! – a mentira insistia.

- Ainda me sinto sozinho, me falta o abraço, eu me sinto tão sozinho ainda. Falta-me o abraço!

- Tu ainda me tens, eu posso te dar um abraço – respondeu a mentira.

- Então venha cá.

E a mentira abraçou o principezinho. Ele sentiu seu coração pular, parecia um carnaval em seu peito. Mas onde principezinho morava não tinha dessas coisas. Ele morava na cidade Silêncio, no sul do país Solidão que ficava no planeta Poesia. E ele seguiu disfarçando e lutando contra a solidão e o silêncio com rimas e mentiras. Pobre principezinho. Era um poeta torto.

Mas ele agora recebera o abraço da mentira. E esse abraço fazia com que todas as partes do seu corpo quisessem mais e mais abraços. Ele sentiu algo o puxando pela cabeça, uma sensação boa e esquisita, disse. Ele fechou os olhos e apenas sentiu o abraço da mentira.

Quando abria seus olhos, enquanto as cores do mundo ainda estavam embaçadas, pôs-se a falar, bem baixinho:

- Isso me pareceu tão real.

- Mas não foi? – respondeu a mentira.

Principezinho e mentira começaram a rir e riram tão alto, mas tão alto, que fizeram a cidade Silêncio acordar. E se olharam espantados porque achavam que eram os únicos do planeta Poesia. Olharam-se assustados. E ele gritou: “Quem está aí?”. Mas ninguém respondeu. Ele tornou a gritar, e mesmo assim ainda não obteve resposta. Resolveu olhar as estrelas, uma brilhava tanto, e de estrela, essa se tornou a Estrela. Resolveu conversar:

- Tu que brilhas tanto e olha tudo aí em cima, sabe quem despertei com meu riso?

- Ela não fala – respondeu a mentira.

- Quero um mundo em que estrelas falem – ele retrucou.

- Sabes que elas só brilham. – disse a mentira com a máscara da verdade.

Dizem que principezinho viu até disco-voador em uma dessas noites de conversa com o céu. Uns dizem ele viu duas vezes. As luzes faziam um ziguezague, como um monitor de frequência cardíaca, sabe?

O principezinho via o que não tinha feito. Via porque não era tão sozinho assim. Via porque havia coisas que nem principezinho, nem Pequeno Príncipe conseguiam explicar. Nem mesmo qualquer criança conseguiria entender. Então ele pensou que naquele dia, naquele dia em que riu com a mentira, talvez tivesse despertado alguém. E aquilo fez de principezinho tão triste. Se existia alguém ali, além dele, além das estrelas, das flores, da lua, do sol, do anjo e da mentira, por que não ia falar com ele? “O problema sou eu?” Pensou.

Então ele chorou, e chorou tão alto que fez acordar a cidade Silêncio novamente. Mas não só isso. Dessa vez acordou todo o país Solidão, todo o planeta Poesia. E perguntou novamente para as estrelas, e ela novamente não respondeu. E se pôs a escrever. Escrevia sobre discos-voadores. O poeta torto agora estava com raiva. Juntou papel, caneta e mentira. Saiu contando as histórias das estrelas, do sol, do anjo – mas esse aparecia como céu, ou como mar – da flor... A mentira era sua melhor amiga.

Mas eis que um dia, um dia desses em que as estrelas brilhavam tanto no céu - que de tão bonitas e inalcançáveis fizeram nosso principezinho ir para a janela- um vento veio tão forte, mas tão forte, que principezinho se perguntou se as estrelas não iriam cair. Se as flores não iriam voar e o jardim sumir. Principezinho agarrou a mão da mentira. Mas a única coisa que veio voando com o vento foi um papelzinho. Ele olhou para o papelzinho e disse pra mentira:

- Ainda bem que tem pouca coisa escrita, odeio ler.

Aquele menino que era meio príncipe, meio poeta, também era um paradoxo. Guardava em si um universo de palavras bonitas, mas ao mesmo tempo não gostava de ler. Lia apenas o que escrevia. Mas naquele mundo tão vazio, quem seria escrevedor além dele? Então abriu o papelzinho e leu:

Desencontro.

Uma vírgula, um ponto, uma linha,

É meu intervalo, meu pensamento, minha casa.

A pausa, o fim, o chão.

É seu intervalo, seu pensamento, sua casa.

Mas de que adianta então

Sermos sinônimos,

Se nunca seremos usados na mesma frase.

Pra dizer a pausa, já se usam a vírgula.

E nós seremos uma constante substituição.

Podemos ser uma só palavra,

Ao invés de substitutos.

A palavra é a única forma de te tocar.

Principezinho era só sorriso. Pensou até em trocar o nome de sua cidade de tão sorridente que estava. Não era mais o silêncio a partir daquele dia, não pertencia mais a solidão e nem a solidão pertencia mais a poesia. Então, nessa noite, principezinho resolveu ao invés de olhar as estrelas, fechar seus olhos. Eis que surge uma menina, uma menina torta. Uma menina que não era nem princesa, nem poeta, mas era torta. Ela explica para o torto, que veio visitar o planeta dele, mas que ela não era dali, não. Ela disse que não dominava muito o idioma do principezinho, mas que tinha aprendido a língua de Poesia só para falar com ele. Disse que era muito difícil, mas que esperava ter se saído bem. E ele perguntou qual era o nome do planeta dela e ela disse: Grito. E então ele perguntou qual era o nome do país e ela disse: Sufoco e ele perguntou o nome da cidade e ela disse: Rio. E completou:

- Ouvi seu riso, aquela noite. Achei que tivesse alguém na minha cidade. Olhei para as estrelas, mas elas não me disseram nada. Elas estavam tão sem brilho. Então fui à montanha mais alta que tinha em meu planeta. E vi que uma estrela brilhava muito! Ela me guiou! Então eu cheguei até o seu planeta, com aquele meu automóvel que fazem luzes em ziguezague pelo céu, como um monitor de frequência cardíaca, sabe? Mas você se espantou. Eu não queria espantar a paz. Principezinho, você é a paz. Não se pode chegar e enlouquecer a paz assim! E foi assim que me dediquei a escrever em Poesia, para falar com você sem tirar a sua paz. E você, mesmo não gostando de ler, me aceitou. Eu sou suas palavras!

- Tu és minhas palavras! – ele respondeu.

Então principezinho abriu o olho. Olhou para a mentira e disse: Sonhei com uma menina que parecia mais real do que esse mundo que eu vivo. Será que estou dormindo e tinha acordado, ou será que estou acordado e estava dormindo?

A mentira olhou sem paciência e disse:

- Por acaso pareço um sonho? Tu acabaste de acordar. Ande logo, não pintaste aquele sol direito, e o dia está nublado.


--

A aeromoça disse que o avião já ia pousar. Então ela fechou o livro. Fechou a história do principezinho, do poeta torto, fechou um universo inteiro de poesia e solidão e colocou o livro fechado sobre o peito. Sentiu tão forte aquela história. Ficou pensando como seria conhecer o planeta Poesia e o planeta Grito. Mas agora, mesmo não podendo conhecer o príncipe, ela estava indo visitar a Princesa. Colocou o livro na bolsa e pegou seu casaco. E pensou: Será que em algum lugar existe um poeta torto, um principezinho, um paradoxo ambulante, um colecionador de estrelas como aquele do livro? Acabou respondendo em voz alta:

- Capaz.

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